imagem HOJE É DIA DE FALAR EM PÚBLICO

Por Daniel Ramalho

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Foram dias como esse que me mostraram o quanto é importante acreditarmos em nossa força interior, algo que considero o fator principal de minha superação do diagnóstico de diabetes tipo 1 há 8 anos, enquanto passava, ao mesmo tempo, por turbulências profundas em minha vida.

Há alguns anos esse seria um momento extremamente tenso e por simplesmente pensar que mais tarde falaria em público, sentiria uma pontada bem forte no coração e desandaria a suar frio. Sorte minha que naquela época ainda não tinha diabetes, senão seria um dia desses de gangorras glicêmicas.

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Início dos anos 80: audição de piano do Conservatório Brasileiro de Música no auditório do Colégio Imaculada Conceição.

Quando criança tinha certa timidez, algum receio de falar para pessoas que não conhecia e até para outras apresentações que não envolvessem a oratória, tais como: competições de natação e audições de piano. Ha, ha, ha! Lembro bem desses dois exemplos e da choradeira que “apresentei” nesses dias, mas no geral, era algo que conseguia enfrentar. Tinha que estar muito seguro do que falaria ou apresentaria, se não fosse assim, nem adiantava pedir para que me expusesse.

O tempo passou e eu ali naquela timidez, mesmo diante de certa popularidade que tinha quando adolescente, sempre falando com todos e ao mesmo tempo sendo uma pessoa discreta.

Até que chegou o dia de percorrer as salas do antigo Colégio Van Gogh, no Rio de Janeiro, para fazer publicidade de minha chapa que concorria ao Grêmio Estudantil, e travei diante da única turma que não poderia travar: a dos alunos mais velhos que eu. Foi aquela risada… Pra dizer a verdade, eu travei por conta das risadas, pois um amigo havia falado super formalmente e eu, tentando disfarçar meu nervosismo e aparentar naturalidade, comecei meu discurso com um “Bom, galera. O negócio é o seguinte”. Foi só o que consegui falar e depois continuaram por mim.

Hoje rio dessa situação, mas naquele dia devo ter ficado de todas as cores e desidratado de tanto suar. Ha, ha, ha! Tanto é que passei alguns anos sem me aventurar no campo da oratória. Até porque sempre gostei mais de escrever (rsrsrs).

O tempo passou, já estava na faculdade e novamente me vi em uma situação na qual seria obrigado a falar em público, fazendo um trabalho para a matéria do professor mais casca-grossa que havia na universidade. Que sorte a minha, para não dizer o contrário… Vi que a situação era inevitável e que se quisesse a nota teria que falar diante da enorme turma que, para mim, parecia uma multidão.

Enchi o peito de coragem, fiz um trabalho muito bom e fui muito seguro para apresentá-lo diante de todos. Quando chegou a minha vez, subi no tablado com uma pequena ficha com os tópicos do que deveria falar. Não queria esquecer absolutamente nada, pois eu sabia que aquele trabalho estava excelente, por mais que minha modéstia quisesse pensar que era só mais um.

Comecei a apresentação! Estava super orgulhoso do que estava fazendo, já imaginava a admiração que estava despertando nas pessoas e despertei o interesse de vários colegas com o conteúdo que escolhi para aquele dia. Até que… (nessas histórias sempre tem o “Até que…”). Bem… Até que um amigo perguntou: “Daniel, tá muito calor aí? Você não para de se abanar com esse papel que está na sua mão”. Eu tremia tanto que a ficha com os tópicos parecia mais um leque, o que nunca passa despercebido diante dos amigos. Ha, ha, ha! E mais uma vez as risadas… Muitas risadas! Eram bem mais risadas do que na época do colégio e soavam bem mais fortes também.

A situação estava ali de novo! Travei novamente. Foram 3 ou 4 segundos que pareceram horas. E nessas horas, vi um filme diante de meus olhos. Um filme repetido, o que aconteceu no 2º grau, as outras vezes que quis falar e preferi me calar… Mas todo filme tem um fim!

Inspirei todo o ar que pude e expirei já voltando ao que precisava ser dito. As risadas deram lugar ao silêncio e à empolgação de todos diante do que apresentava. Até o professor se interessou e complementou vários trechos da apresentação, como se também quisesse participar daquele momento. Nota 10!

Foram os 15 minutos mais longos e um dos mais importantes de minha vida. Foi o meu momento de glória, de superação de algo que me incomodava, que afetava minha autoestima e limitava meus sonhos.

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“O Segredo da Mata Atlântica”, Teatro Tablado-Rio de Janeiro, 2001

Obviamente, esse foi só o primeiro passo, pois quatro anos depois me tornei professor, mais dois e me tornei ator e acabei, definitivamente, dominando o que antes me dominava. Aprendi a sentir prazer com a descarga de adrenalina que até hoje sinto segundos antes de falar em público, seja palestrando ou em uma simples apresentação de um trabalho, como hoje.

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“Pinóquio”, Teatro Óperon-Rio de Janeiro, 2005.

Pode parecer que uma coisa nada tem a ver com a outra, mas essa vitória foi muito importante quando do recebimento do diagnóstico, pois, por mais que determinadas situações me surpreendam ou me deem uma pancada inicial, jamais aceitei novamente que a vida me dissesse que me curvasse e não me levantasse mais.

Depois de tudo, eu aprendi que a vida por mais que seja linda, não é nada fácil, mas que o que a faz mais linda e mais simples, é a nossa capacidade de aceitar e enfrentar os desafios que nos são propostos por ela diariamente.

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Monólogo baseado na crônica “A Borboleta Amarela” de Rubem Braga. Teatro Tablado, Rio de Janeiro, 2000.

Hoje falarei em público.

Sinto-me ansioso, CLARO, mas sei que se as coisas não saírem como o planejado, sairão de alguma forma e que aprenderei com ela. É daí que vem o prazer que sinto em dias de falar em público: de saber que depois de tudo, serei uma pessoa diferente, melhor.

O importante é jamais nos negarmos a oportunidade de viver as experiências propostas pela vida, pela evolução e pelo espírito guerreiro que cada um de nós deve ter diariamente para enfrentar uma disfunção como o diabetes.

Vamos em frente, guerreiros! E se o desânimo bater, nunca se esqueçam que ele é passageiro, mas que o orgulho e a alegria da superação e do crescimento pessoal são eternos.

Lembrem-se disso!

NÓS PODEMOS TUDO!

Grande abraço,

DANIEL RAMALHO

DIABETES ESPORTE & NATUREZA

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