imagem Esportes na infância: forjando guerreiros

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1979: Chegando para uma das primeiras aulas de natação

Aqui no DIABETES, ESPORTE & NATUREZA sempre falamos sobre a relação entre a prática de atividades físicas e o controle da glicemia. Claro! Esse é o tema principal de nosso grupo, página e blog. Porém, pouco falo sobre como descobri o valor dos esportes em meu tratamento.

A história começa no final dos anos 70, quando meus pais matricularam a mim e ao meu irmão na natação. Nessa época ainda não tinha diabetes, o que só aconteceria quase 30 anos depois, mas já descobria o valor de se educar o corpo no tocante aos exercícios físicos.

Aquele início não foi nada fácil. Tínhamos um professor bem enérgico no Montanha Clube. O “tio” Washington era bastante exigente, mas a garotada adorava sua aula e eu também.

Lembro-me que era um dos menores da turma, que, em média, tinha a idade do meu irmão, 3 anos mais velho. Justamente por isso, não raro, eu era o alvo das zoações. Eu ficava com muita raiva, até porque meu irmão geralmente começava a brincadeira, mas não engolia aquilo e aprontava as minhas também.

Por mais incrível que possa parecer, nesse tempo ainda era muito reservado, discreto e não curtia nada uma exposição. Talvez por isso, na primeira competição que iria participar tenha tido uma crise de choro e me recusado a competir bem na hora do evento. Sim, fui o popular “mela evento”. Rsrsrs.

Na verdade, a quantidade de gente que havia era algo que realmente me atormentava, mas isso era um problema meu, não do evento, muito menos do professor. Faz parte de toda uma superação que só viria, por completo, anos mais tarde.

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1980: Sr. Luciano, ex-esportista e professor de educação física, grande incentivador da prática esportiva em sua família. Na foto: Daniel Ramalho, Luciano e Claudio. Alto da Boavista, Rio de Janeiro-RJ

O fato é que depois daquilo acabei não querendo mais nadar e, sabiamente, meus pais decidiram me tirar da natação naquele momento. Digo sabiamente, pois a intenção era evitar traumas, pois eles queriam que eu voltasse depois. E vocês acham que um ex-professor de educação física daria vida fácil ao seu caçula? Ha, ha, ha! De jeito nenhum!

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1980: Eu me divertindo com mais segurança. Mendes-RJ

Anos mais tarde, o alvorecer em nossa casa passou a ser cômico: meu pai entrava no quarto que compartilhava com meu irmão e nos acordava para começar o treino. Como sempre gostei de acordar cedo, nunca cheguei a ver sua segunda entrada no dormitório enquanto ainda estivesse deitado, mas fazia questão de vê-la de pé: papai entrava segurando um copo d’água e dava mais uma chance ao meu irmão para se levantar. Não posso negar que torcia para que ele continuasse dormindo para poder vê-lo levar água na cara. Ha, ha, ha! É realmente uma pena que isso só tenha acontecido umas 3 ou 4 vezes, pois aquele copo realmente assustava e o “brother” geralmente não dava mole para o “coroa”.

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1981: Alegria após mais um dia nadando. Minha mãe tinha muita paciência para, entre tarefas de casa e direção escolar, nos levar para nadar duas a três vezes por semana.

Minha volta à natação se deu gradativamente e com muito prazer. Com o tempo, passei até a competir, mas nunca gostei muito dessa parte, minha razão para a prática esportiva era o prazer que me trazia, fazer amigos e apenas isso. Ainda havia um pouquinho de vontade de controlar uma bronquite que me atormentou durante a infância e a adolescência, depois que tive coqueluche, mas o que me movia mesmo era o prazer de gastar energia e de estar com os amigos.

Quase 30 anos depois, de repente notei que havia emagrecido. Praticamente sedentário por uns 5 anos, aproveitei aquilo para voltar a fazer exercícios, já que eram poucos os que podia, pois meu peso anterior poderia acabar me lesionando seriamente.

Nossa! Como curti aquele momento! Corria por todo o bairro, todos os dias e estava em êxtase! Comprei um skate novo, tirei o pó da minha prancha de surf, desencapei o meu bodyboard e queria realmente voltar aos velhos tempos, mas dizem que o que é bom dura pouco…

No dia 09 de julho de 2008 recebi o diagnóstico de Diabetes tipo 1. Sim, tardiamente, mas o diabetes tinha me agarrado aos 45 do segundo tempo, aos 33 anos.

Imediatamente passei a pisar num terreno instável, sobre o qual nada sabia e abandonei os esportes. Embora me dissessem que fazia bem até aos diabéticos, após minha primeira hipoglicemia, minha primeira reação foi deixar novamente a prática esportiva.

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1993: Adolescência com muito esporte, principalmente o Bodyboard. Barra de São João, Rio de Janeiro-RJ

Passado o impacto do diagnóstico, é preciso agir. Escolhi conhecer melhor minha nova realidade e parti para a leitura. Esse foi um grande divisor de águas em meu tratamento, pois foi através da leitura que aprendi que o diabetes é uma disfunção controlável e que as atividades físicas ajudavam muito. Aprendi também que aquilo que me fez emagrecer tanto chama-se cetoacidose e que os 24 quilos que perdi não foram obra do acaso: eu estava em perigo e nem imaginava.

Como em minha vida o ditado “Missão dada é missão cumprida” faz muito sentido, arregacei as mangas e fui à luta.

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2013: Recreio dos Bandeirantes, Rio de Janeiro-RJ
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2005: Barra da Tijuca, Rio de Janeiro-RJ

Já nos primeiros treinos, notei o quanto as atividades influenciavam em minha glicemia. O tratamento era completamente diferente nos dias em que me exercitava! Em lugar de controlar a hiperglicemia o dia inteiro, após o reencontro com os esportes, passei a ter que controlar as hipoglicemias. Sim! Com os exercícios potencializando o efeito da insulina, notei que nos dias de treinos poderia comer bem mais do que sem eles. Aquilo me deixou muito aliviado e vi que até os esportes aquáticos que tanto amo, poderia voltar a praticar. A possibilidade que erroneamente aventei de nunca mais voltar ao Surf ou ao Bodyboard quando recebi o diagnóstico, era algo distante naquele momento: descobri que não só poderia fazer tudo isso, mas usá-los como um incentivo a mais para controlar minha glicemia.

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Nem o diagnóstico de uma Necrose avascular na cabeça do fêmur me fez parar. Substituí as corridas por caminhadas e ainda ganhei uma companheira de malhação: Athenas! 2015, Rio de Janeiro-RJ.

E finalmente chegamos onde queria com esse texto: a moral da história (risos). Gostaria de chamar a atenção do leitor que essa minha “virada de jogo” após o diagnóstico, não seria possível se láááááá no final dos anos 70, meus pais não houvessem tido paciência para insistir na prática da natação, tomando o cuidado para que não ficassem traumas, mas jamais permitindo que eu desistisse.

Trabalhando com crianças há quase 18 anos, já vi muitos pais desistirem de várias atividades benéficas a seus filhos pelo simples “ele não leva jeito”, “ele não gosta”, “não quero forçar”… São inúmeras as desculpas para o “não tenho paciência/tempo para lidar com isso”.

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A descoberta de novos esportes me traz muita energia positiva. Aqui, dando as primeiras remadas no Stand Up Paddle (SUP). 2014: Búzios, RJ.

Eu também não levava jeito, não gostava, fui forçado e como agradeço aos meus pais por isso. Pela insistência deles, eu aprendi a levar jeito, aprendi a gostar e passei a ir de livre e espontânea vontade. Isso fez toda a diferença durante toda a minha vida, tirei e ainda tiro muitas lições, foi uma das questões que ajudaram a formar o meu caráter e foi o que me fez decidir pela vida, quando ela própria me fez escolher entre continuar com ela ou morrer aos poucos. E tudo porque meus pais não desistiram de mim.

Às vezes a rotina é desgastante, não temos tempo, estamos cansados, mas tudo vale a pena se é para ensinar bons hábitos e valores positivos a nossos filhos. Na hora que recebemos o diagnóstico e começamos o tratamento, as lições que aprendemos no esporte fazem toda a diferença em nossas atitudes.

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O skate também é um companheiro que está comigo desde a infância. Abandonar bons hábitos para quê? Recreio dos Bandeirantes, Rio de Janeiro-RJ

Pensem nisso! Valorizem a vida! Valorizem as atividades físicas! Ensinem seus filhos a encararem os desafios de frente. Ter pena e abrir mão de um nobre sacrifício só para arrancarem-lhes alguns sorrisos passageiros é dizer-lhes que estarão fadados a seguir os caprichos do destino em lugar de abrirem seus próprios caminhos através do próprio suor.

Vamos que vamos! Malhando e controlando a glicemia!!! Boraaaaaaaaaaaa!!!!!!!

Grande abraço,

DANIEL RAMALHO

DIABETES, ESPORTE & NATUREZA

 

 

 


Daniel Ramalho Studio 002 DM1

Blogueiro, jornalista, pedagogo, esportista amador, músico e ator. Convive com o Diabetes Mellitus tipo 1 desde 09/07/2008. Amante dos esportes radicais com ênfase em Surf, Bodyboard e Skate, além de praticante de ciclismo, natação e trekking, utiliza as atividades físicas como aliadas no controle glicêmico.
Profissionalmente dedica-se à composição de trilhas sonoras, administração escolar e ao jornalismo.

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