imagem SEM PERDER A DOÇURA

Cambalhota

Ontem postei um vídeo comentando o quanto fiquei perplexo diante de tantos posts negativos sobre o diabetes que pude ler em apenas uma noite no Facebook. Fiquei muito triste com o que vi e até hoje estou refletindo sobre o que leva as pessoas a reclamarem tanto, pois, ainda que o diabetes não seja uma coisa extremamente agradável, não podemos gastar tanta energia para reclamar diariamente de nossas vidas, em lugar de usar esse tempo para coisas realmente importantes.

Parece que reclamar tornou-se um vício, uma coisa que preenche um vazio qualquer de nossas vidas. Se não temos o que falar, prontamente encontramos alguma coisa para reclamar e assim interagimos com nossos vizinhos no elevador, com alguém na fila de banco ou de um supermercado: “Que calor sufocante, não é?”, “Mas essa fila não anda!”, qualquer queixa serve para encontrarmos uma desculpa para iniciar uma conversa. Raramente começamos elogiando a roupa de alguém ou alguma atitude. De fato, reclamar rende muito mais conversa.

Enquanto isso se limita ao primeiro contato, ao simples pretexto para uma conversa, não há grandes problemas. A questão começa a tomar um rumo perigoso a partir do momento que adotamos as queixas como parte do nosso dia-a-dia, ainda que não tenhamos um motivo para tanto, e é no trabalho que isso se torna mais evidente. Quantos problemas seriam evitados se aquela menina não houvesse cogitado a hipótese de ter sido preterida em determinada promoção em virtude de um suposto protecionismo do patrão com a promovida? Que ambiente maravilhoso de trabalho teríamos se aquele outro colega não se achasse tão injustiçado ao receber trabalho para o fim de semana… E se aquela colega não reclamasse tanto dos clientes? Pois é… Reclamações e queixar-se dos problemas podem originar fofocas, péssimos ambientes de interação, stress, mal estar, e por aí vai.

Em suma, viver reclamando, queixando-se dos problemas em lugar de aproveitá-los para seu crescimento e aprendizado nos desgasta e termina por minar nossa saúde diariamente.

Assim como em todo vício, não é fácil livrar-se do hábito. Podemos até começar muito bem, mas se relaxarmos um pouco, voltaremos a fazer o mesmo. Precisa-se de disciplina, força de vontade e foco.

Como diabéticos, essa energia negativa e tensão geradas pela hipervalorização dos problemas, constantes reclamações, o vitimismo e a autopiedade atrapalha, e muito, em nosso controle, gerando rebeldias constantes em várias pessoas e, consequentemente, a falta de cuidados.

Nada disso é “privilégio exclusivo” de quem convive com a diabetes, portanto, uma questão tão comum em nossa sociedade, acaba adquirindo traços dramáticos para aquele que quer se livrar de todo esse mal provocado pelo discurso negativista, derrotado e revoltado, que se vale frequentemente do rótulo de “realista” para convencer a todos de que o mundo não presta ou de que a vida é muito cruel com o próprio emissor desse discurso.

Uma das formas para nos vermos livres da tentação de cair na inércia provocada por essas questões, é desenvolver uma espécie de escudo contra os “reclamões”, sempre respondendo-lhes com uma mensagem positiva diante de seu queixume ou simplesmente ignorando a ladainha dando-lhe um sorriso como resposta. Desta forma nos preservamos, aos poucos essa pessoa verá que você não é um bom ouvinte de reclamações e partirá para outro alvo.

Às vezes nós também somos nossos piores algozes, portanto frequentemente precisamos nos proteger de nós mesmos. A melhor forma de fazê-lo é dedicar-se a seu bem estar, seu trabalho e crescimento.

Todos os dias nos levantamos para realizar várias tarefas, algumas programadas, outras quase automáticas e ainda há as que aparecem repentinamente. A única certeza que temos é que elas existem e que podem ocupar a maior parte do nosso tempo… E por que não dizer que ocupa todo o nosso tempo? É verdade! Diariamente nos levantamos para resolver problemas. Não! Não estou sendo negativo, mas realista. Se não existissem problemas a serem resolvidos, a vida seria um tédio e em pouco tempo entraríamos em estado vegetativo. Claro! O que é a fome matinal senão um problema a ser solucionado? O que é nosso mau hálito quando despertamos em jejum senão uma questão a ser resolvida escovando-se os dentes? Então… Vivemos ou não vivemos para resolver problemas o tempo todo?

Às vezes bate aquela preguiça de levantar, tomar café, escovar os dentes, mas logo o fazemos, não é mesmo? Não adianta reclamar, temos que fazer… Temos? E se decidirmos ceder à má vontade, ao “reclamão” interno que todos temos? Certamente morreremos de fome e com mau hálito. É isso que acontece quando reclamamos constantemente do diabetes: ficamos inertes diante das dificuldades e aos poucos vamos “morrendo de fome e com mau hálito”, quer dizer, vamos minando nossas forças quando mais precisamos delas para lutar.

Por outro lado, se encararmos nossa vida como um grande projeto de busca da felicidade, nada poderá nos deter! A cada dia devemos nos levantar e encarar os problemas como mini projetos a serem planejados, preparados e executados. E quando digo “planejar”, refiro-me a colocar tudo no papel, literalmente, pois visualizando e materializando os compromissos que assumimos, torna-se mais difícil escapar de nossa responsabilidade. Cada dose de insulina, cada remédio tomado, cada refeição, cada pequeno trabalho ou atitude pode e deve ser colocada no papel. A cada coisa realizada, a cada problema resolvido, marcamos com um OK ao lado da anotação de nossa tarefa cumprida. Essa pequena atitude pode parecer simplista, mas organiza nossa mente e faz com que nossos dias rendam mais e tenhamos menos tempo para pensarmos em reclamações. O prazer da produção, de vermos que tudo em nossa vida está caminhando, que realizamos várias coisas diariamente, nos dá a força que precisamos para não perdermos mais tempo com o que nos afasta de nossas metas e nos desanima!

O controle do diabetes exige que sejamos mais responsáveis, mas não que tenhamos que perder a doçura. Ver a vida com bons olhos, enxergar a beleza da natureza, das atividades físicas, de fazermos parte de um grupo que luta para viver, são questões das quais não podemos abrir mão. Um mundo enorme e feliz de oportunidades a serem descobertas abre-se para nós todos os dias. Resta-nos abrir os olhos, o coração e permitir-nos viver cada prazer que esse mundo nos oferece. Ver os problemas de forma positiva nos dá o combustível necessário para abrir caminho em meio aos percalços e chegar ao fim de uma longa vida com a certeza de que fizemos dela um grande espetáculo de felicidade e conquistas!

Há alguns anos tomei uma decisão e tenho sido fiel ao que me propus: Eu não sofro de diabetes, eu VIVO com diabetes!

DANIEL RAMALHO

DIABETES, ESPORTE & NATUREZA

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